Fala Tu: um registro de quem está à margem da sociedade

A nossa lei é falha, violenta e Suicida. Se diz que, me diz que, não se revela: parágrafo primeiro na lei da Favela. Legal… Assustador é quando se descobre que tudo dá em nada e que só morre o pobre. A gente vive se matando irmão, por quê? Não me olhe assim, eu sou igual a você. Descanse o seu gatilho, descanse o seu gatilho, entre no trem da humildade, o meu Rap é o Trilho.

(Racionais MC's)

O documentário “Fala Tu”, do diretor Guilherme Coelho, que traz um recorte da sociedade, daqueles que vivem à margem, nos subúrbios, no caso, da zona norte do Rio de Janeiro, retrata uma realidade nua e crua da sociedade brasileira. Uma realidade expressa no filme através do rap, estilo caracterizado pela crítica social. 

Em “Fala Tu”, o espectador acompanha o cotidiano de Mônica Xavier de Oliveira, conhecida no cenário rap como Combatente, Macarrão, Sérgio Teixeira Filho (Thogum), rappers, conhecidos dentro de suas comunidades, que apresentam depoimentos marcados pelo descontentamento com a própria condição socioeconômica, desigualdade social, racismo e a violência policial.

Nos depoimentos de Thogum, levantado uma série de problemáticas sociais como a discriminação racial, o preconceito, a falta de oportunidade para que uma pessoa, de baixo recurso, consiga dar continuidade aos estudos e poder cursar uma universidade, e, inclusive, em outra passagem, narra à humilhação e a agressão em uma das batidas policial sofrida, a qual fica evidente outra questão, a violência policial. Vemos no filme que as situações do cotidiano de cada um dos personagens perpassam nas letras das músicas que compõem. 

Vejo meus irmãos pretos, deixados de lado, sem referencial, confusos com sua pele, não sabem o que são, moreno jambo, mulatinho ou até azulão e ainda escutam no rádio, vêem na TV o alienado dizer ‘nossa cor marrom, marrom bombom, marrom bombom’. Emparedado, cuidado seu preto abobado, quer nos dissimular, nem imagina o trabalho que dá para nossa etnia se articular. Tu não se importa com a mensagem que tem de passar, pensa somente no dinheiro que tem para ganhar. Negros por excelência vêm te alertar: cuspa fora o veneno que vão te injetar, adquira consciência, exaltando sempre sua negritude, não seja mais um covarde negro atual, retira a venda dos olhos e caia na real, real, real. Geneticamente somos mais fortes, na luta diária corremos da morte, nos dão como prêmio a droga, o analfabetismo, te enterram no crack, na cocaína do mal, realizando com sucesso o genocídio total, mude rapidamente sua atitude, levante sua cabeça, chega de escravidão, levante sua cabeça, não seja um babaca negão. Espero ansioso a tua reação (Letra do rapper Thogum ).

 

Além disso, outra questão é pautada: a resistência em relação à mulher vinda de uma parcela dos homens no rap. Embora a presença feminina nos palcos seja menor, as rappers, infelizmente, ainda passam pelo enfrentamento de diversos preconceitos quando procuram se afirmar nesse cenário. Para tentar amenizar os embates, num primeiro momento, buscam “estratégias socioculturais para conquistarem reconhecimento artístico no rap”.

Como tantas outras cantoras, Mônica, Afro Lady e Camila também lutam para conquistar seu espaço, reconhecimento artístico e social num universo que ainda é dominado pelos homens. Além disso, traz em sua música um discurso sobre as urgências cotidianas, os problemas sociais, tais como, a violência contra mulher, o respeito ao seu corpo, a discriminação, além do empoderamento feminino.

Em “Fala Tu”, as histórias pessoais ali apresentadas retratam uma realidade nua e crua de um país marcado por desigualdades socioeconômicas e culturais. Mostra um Estado ausente e, ao mesmo tempo, impotente em assumir de fato o papel que lhe cabe: garantir a população seus direitos, qualidade de vida, dignidade e segurança.

Não há desfechos para os entrevistados, a vida apenas continua, sem muitas expectativas de melhoras. Eles são apenas sobreviventes ou pelo menos tentam sobreviver como podem ou como dá diante das adversidades que surgem no caminho. É no rap, através de sua expressão musical, que Combatente, Macarrão e Thogum, bem como outros rappers, ganham voz e são ouvidos, onde manifestam e protestam contra tantas injustiças que enfrentam diariamente.  

 

 
Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e também jardineira. É cofundadora do Coletivo Pausa, cofundadora/editora-chefe do EntreLinha, uma cinéfila incorrigível, amante das artes e da literatura.