“Febre do Rato”: a poesia marginal pela ótica do cinema visceral de Claudio Assis

27-9-2012-g-febre

Por Armando Neto, jornalista, escritor e apaixonado por cinema

Em “Febre do Rato” (2011), a poesia marginal recifense é levada com maestria as telas de cinema pelas mãos do diretor Claudio Assis, responsável também por outras pérolas do cinema nacional, como: “Baixio das Bestas” (2007), e “Amarelo Manga” (2002). Este ano, seu novo filme, “Big Jato”, vencedor do Festival de Brasília (2015), tem previsão de chegar às salas comerciais. Assim esperamos, ansiosamente.

Febre do rato” é, simplesmente, embriagante. Somos convidados a adentrar uma viagem perturbadoramente lírica, arrebatadora, na captação da vida pelos olhos do poeta anarquista, Zizo, interpretado magistralmente por Irandhir Santos.

Zizo vive em estado de "febre do rato", expressão tipicamente Recifense para designar alguém que está fora de controle, está danado. Alguém, sobretudo, que ama a vida em seu estado mais libertário, exalando em seu grau máximo todos os prazeres de um mundo regado pela paixão. Paixão pelas palavras, por viver impulsionado pelos sentimentos tradutórios de sua essência. Paixão por desafiar o estado concebido das coisas, questionar os modelos e oferecer resistência à superficialidade de uma sociedade amorfa.

O mundo de Zizo gira em torno do pasquim "Febre do Rato", que ele edita e utiliza como instrumento principal de sua luta situada, basicamente, no centro velho do Recife. Com uma fotografia primorosa de Walter Carvalho, em preto e branco, a capital Pernambucana é apresentada com todos os contrastes de um grande centro urbano do nosso país, distante dos clichês representativos do nordeste brasileiro, flagrando, acima de tudo, o flagelo do descaso das pessoas com as mensagens do poeta, perdidas em um labirinto de alienação infindável.

Mensagens que Zizo presenteia familiares e colegas, cotidianamente brindados pela transformação advinda de suas reflexões. Quem convive com o poeta não lhe é indiferente; acaba contagiado por seu espírito devastador em todos os sentidos. Sua figura está representada em cada núcleo do roteiro do filme – assinado por Hilton Lacerda – : no romance de seu amigo Pazinho (Matheus Nachtergaele) com um travesti, nos três amigos que dividem a casa e o amor com a mesma mulher, no seu fetiche por mulheres mais velhas até se apaixonar perdidamente por uma estudante.

As cenas de sexo são, na maioria, retratadas do alto, gerando imagens tão belas que alocam a nudez em profundo contexto, especialmente diante das percepções de uma mente sem freios. O sexo, sem nenhuma máscara, aflora como mecanismo de satisfação, de prazer em estado visceral, situação somente contida pelo aparecer do sublime sentimento: a paixão do poeta por sua musa. O álcool e a maconha, consumidos excessivamente por Zizo, são pano de fundo para realçar a única condição necessária ao seu ser: o respeito à essência da liberdade como propulsor do direito de errar e, somente assim, permitir-se viver com plenitude. A liberdade, inclusive, de se prender a uma paixão avassaladora, contraditória em sua existência, fiel aos seus mais naturais instintos, que ele mesmo afirma: “O que é a anarquia diante da prisão doentia da paixão?”

Em uma das cenas primorosas (e são inúmeras), o poeta joga ao rio Capiberibe barquinhos de papel confeccionados com o seu folhetim, na expectativa de que aportem nas mentes daqueles que os resgatarem.

A metáfora serve com precisão para a distribuição do próprio filme. Apesar dos inúmeros prêmios recebidos em festivais pelo Brasil afora, Febre do Rato” teve uma passagem muito acanhada pelo circuito de cinema nacional. Uma pena. O descaso, a falta de acesso, enfim, sua minúscula exibição demonstra o tratamento dado ao cinema autoral no país.

Não há espaço para exibir cinema com qualidade, com reflexão? Onde estariam às leis de incentivo à cultura para quebrarem essa condição imposta por modelos condicionados? Cultura não tem mercado? Está mais do que na hora de cutucar os dogmas justificados pela comodidade do superficial e valorizarmos o que, sim, é feito com maestria no Brasil. Para aqueles que traduzem o cinema nacional pelas comédias rasgadas ou pela incessante busca de se aproximar das produções norte-americanas, por favor, assistam ao "Febre do Rato".

Se você não assistiu "Febre do Rato", mexa-se, procure, mas não deixe de admirar uma história cujo legado é atemporal. Viver exige questionamento. O cinema nacional existe. Basta não se prender ao convencional. 

Autor Convidado

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