O que o filme alemão “Labirinto de Mentiras” pode nos mostrar sobre a situação atual do Brasil?

Assisti a esse filme por engano. Escolhi um filme numa lista, deixei carregando e quando cheguei estava passando este, que não era o que eu tinha escolhido. Como é falado em alemão, e o meu tá bem triste, deixei o filme rolar pra fingir que exercitava essa língua que mofa em meu cérebro. O filme mostra acontecimentos cotidianos da Alemanha pós segunda guerra, que viveu um boom após sua pulverização na guerra.

Citei que aprendi a língua alemã porque vivi lá um tempo e pude perceber que ali não é terreno para desenvolvimento do nazismo. As pessoas têm clara consciência do que é nazismo, fascismo e qualquer outra forma de autoritarismo. E o filme explica uma pergunta que deve atrapalhar a noite de sono de muitos brasileiros: “Como tem tanto imbecil no Brasil que apoia imbecis mais imbecis ainda como Frota, Bolsonaro e tantos outros que pedem, entre outros, a volta do regime militar?”. O filme mostra a maneira civilizada de lidar com gente não civilizada.

Um advogado abre as portas para que os alemães que cometeram crimes durante o domínio nazista pudessem ser julgados. Todos. E isso era muita gente. Soldados que, cumprindo ordens, executaram milhões de judeus, perseguiram ciganos e condenaram pela cor da pele ou religião foram levados a julgamento. Eram muitas pessoas e o nazismo estava enraizado de tal maneira na sociedade alemã que, provavelmente, os advogados e procuradores públicos tinham parentes próximos que participaram de forma ativa ou passiva em alguma atrocidade.

E o que tem isso a ver com o Brasil hoje?

Nós conhecemos mais histórias de pessoas que passaram pelo horror nazista que pela ditadura militar no Brasil. Quantos filmes assistimos no passado e que eventualmente ainda abordam o nazismo?

Os obtusos, sempre na defensiva, já rebateriam: "você quer dizer que a ditadura militar no Brasil foi igual ao nazismo?". Claro que não, obtusos. A proporção é muito menor. Mas é preciso colocar na história do Brasil na memória dos brasileiros, pois muitos morreram nas mãos dos militares. Muitos foram torturados. Milhões foram calados. Milhares morreram de fome sem aparecer nos jornais. Bilhões foram surrupiados via corrupção sem qualquer informação.

Em algum lugar, eu li que um torturador militar brasileiro inseria ratos vivos nas vaginas de mulheres presas. Esse relato me bastaria para uma investigação e cancelamento de qualquer anistia. Financiamento de documentários, publicação de filmes, julgamento dos que ainda estão vivos. E o mais importante nem seria a punição em si, mas a inserção na história, na memória de fatos que aconteceram e não foram registrados.

Os russos dizimaram milhões de nazistas, os outros aliados mais um bocado, mas a redenção do povo alemão aconteceu depois, com o julgamento dos nazistas pelos próprios alemães. Quem sabe o Brasil não perde mais uma vez a chance de ver a sua história sem as besteiras como “o gigante acordou” e enfrenta os reais causadores da nossa miséria econômica e intelectual?

Assistam o filme e pensem quantas limpezas não poderiam ser feitas no nosso país para que pudéssemos começar um projeto de país a partir de uma folha limpa, do zero mesmo, mas sem se esquecer dos erros do passado. O diretor é Giulio Ricciarelli, que fez um ótimo trabalho, mas não tem blockbusters no seu currículo. O filme entretém, vale a pena.

E sim, usei a legenda.

Lívio Sakai

Sou como um carro não muito velho, mas com 500.000 km marcados no odômetro.