Todos os grandes filmes de ficção tendem ao documentário,
como todos os grandes documentários tendem à ficção.
[…] E quem opta a fundo por um encontra
necessariamente o outro no fim do caminho.
(Jean-Luc Godard)
O diretor Rodrigo Siqueira, após seu notável documentário “Terra deu, terra come” (2010), de cunho antropológico, que mostra um Brasil raiz, apresenta dessa vez, em “Orestes” (2015), um encontro entre a história do país e suas próprias cicatrizes.
Para esse intento, o diretor se reinventa, parte da tragédia Oresteia, que culmina com o julgamento de Orestes, que mata a mãe e seu amante, Egisto, para vingar a morte do pai. Julgado pelo seu crime, em Atenas, o réu acaba sendo absolvido.
O episódio em questão pôs fim ao Código de Hamurabi – conjunto de leis baseado na Lei Talião (“olho por olho, dente por dente”) criado pelo rei Hamurabi da Babilônia, no XVIII a.C., que dentre elas, a justiça através da vingança.
No documentário, o diretor se apropria da trilogia de Ésquilo e remonta a tragédia à brasileira baseada na trajetória do Cabo Anselmo, um ex-guerrilheiro que era, na verdade, um colaborador no período da Ditadura Militar. Assim, em sua ficção apresenta um réu, um hipotético Orestes, filho de uma militante política e de agente da ditadura militar infiltrado, que vê, através de uma fresta, o próprio pai torturando sua mãe até a morte. Após 37 anos, durante o período de redemocratização, mata seu pai.
Orestes é levado a julgamento, e quem o acusa é próprio promotor Maurício Ribeiro Lopes, considerado um exímio orador em tribunais criminais. Quem preside o Tribunal do Júri simulado é o Juiz de Direito no Estado de São Paulo, José Henrique Torres, também professor de Direito Penal da PUC-Campinas e membro da Associação Juízes para a Democracia. Ambos interpretam a si mesmos no documentário.
Paralelo ao julgamento simulado há o psicodrama – psicoterapia em grupo, em que a representação é usada como método de abordagem –, em que é composto por vítimas da ditadura, da violência policial e da sociedade civil.
Provocador, profundo, incomodo e reflexivo, o documentário deixa claro que os fantasmas do passado e as cicatrizes, marcadas pelo violento processo histórico brasileiro, permanecem na contemporaneidade. Há sequelas; a violência ainda é solucionada com mais violência, cíclico.
“Orestes” é um filme contundente, refinado, em que o diretor articula com tal maestria o documentário, o psicodrama e a encenação. Seu trabalho minucioso impressiona-me, como em “Terra deu, terra come”, outra grande obra documental.
