Recentemente, assisti o documentário de curta-metragem “Viva, Maria, Viva” (2015), da diretora Caroline Monteiro, que chamou minha atenção por aborda uma temática que não tem sido tão explorada como deveria no cinema: a velhice, e, principalmente, por trazer um olhar pelo viés de gênero e ainda ter uma mulher na direção.
“Viva, Maria, Viva”, ideia que havia nascido há tempos em Caroline, ganha corpo e forma com o projeto do TCC, que na época da produção cursava o último ano de Jornalismo pela USP de São Paulo. O filme traz como protagonistas cinco mulheres (Clenilde Maria, Maria de Lourdes, Adriana Santos Ivone e Jaci), na terceira idade, que viveram casamentos problemáticos numa época onde o lugar da mulher era apenas cuidar do lar e filhos.
A geração atual de mulheres idosas, na grande maioria, sofreu com a domesticidade, sendo obrigadas a ser subordinadas aos homens. Além disso, havia a repressão social e sexual, não era ouvida; a obediência e o conformismo era uma obrigatoriedade.
Para as novas gerações, às vezes é difícil de acreditar ou imaginar, é algo revoltante, mas, no entanto, o machismo ainda impera em nossa sociedade. Embora muitas coisas tenham mudado ao longo dos anos, ainda, assim, entre luta pelos direitos e respeito, infelizmente, há mulheres na contemporaneidade que sofrem com essas concepções, raizadas em nossa cultura.
Com uma narrativa de superação, as entrevistadas de “Viva, Maria, Viva” compartilham suas histórias marcadas pelo machismo e preconceito e as reviravoltas que deram em suas vidas, mesmo com a pressão social. Dentre entre elas, duas grandes inspirações motivaram a realização do filme: as avós da própria diretora.
“Minha avó [materna] me ensina todos os dias como foi passar pelas mudanças de valores da sociedade e da própria cabeça, tentando se atualizar e se adaptar às diferentes formas de ver e viver o mundo, sem deixar de lado a bagagem, as experiências e as consequências do machismo e do sexismo”, comenta Caroline.
Caroline dá voz a essas mulheres que nunca se quer foram ouvidas, e agora, na velhice, onde mais uma vez é alvo de preconceito dentro da sociedade brasileira. O filme empodera essas mulheres que foram tão oprimidas em suas vidas.
“O fato de estarem sendo filmadas foi também uma forma de empoderamento. Ficar em frente às câmeras produziu um efeito maior do que se eu estivesse registrando a conversa com um gravador de áudio, apenas. As personagens se sentiram lisonjeadas e importantes por estarem sendo filmadas enquanto contavam as suas histórias, como se agora as vidas delas valessem ainda mais. Elas estão eternizadas”, menciona Caroline. É algo que você sente na fala delas, emociona.
Selecionado pelo edital “Curtas Universitários do Canal Futura”, no ano passado,“Viva, Maria, Viva” foi produzido de forma independente, em parceria com Matheus Hypolito, Thais Gaal, Paulo Chou, Guilherme Beltrami, que naquele momento estavam se formando pela ECA-USP, sendo que os três últimos, hoje, são donos da produtora Abacateiro Filmes.
O curta-metragem foi exibido no programa Sala de Notícias do Canal Futura, e, atualmente, está disponível em seu no Canal no YouTube, você pode conferir o filme clicando aqui. Boa sessão.
* Entrevista cedida ao EntreLinha Blog
* * Imagens cedidas pela diretora Caroline Monteiro
*** Imagem de abertura: personagem Clenilde Maria
