Para navegar contra a corrente são necessárias condições raras:
espírito de aventura, coragem, perseverança e paixão.
Nise da Silveira
O título que abre esse texto é o mesmo de uma palestra que tive a oportunidade de conferir, recentemente, na Faculdade de Educação (FE-UNICAMP), complementando um estudo anterior sobre Nise da Silveira (1905-1999), as imagens do inconsciente, arquétipos e os pensamentos de Carl Gustave Jung que havia cursado, a qual fiquei ainda mais encantada. É claro que ainda há muito a se aprender sobre esse universo tão fascinante.
Nesse encontro, ministrado pela psicoterapeuta e poeta Teresa Vignolli, que estagiou e frequentou o grupo de estudo sobre os pensamentos de Jung junto à Dra. Nise da Silveira na década de 70, com a participação do prof. Dr. Adilson Nascimento da FE-UNICAMP, que há um bom tempo vem estudando essas duas figuras tão emblemáticas, pude ter contato maior com a sua história de vida e conhecer um pouco mais sobre alguns de seus clientes (forma que denominava seus pacientes), como Adelina Gomes, Carlos Pertuis, Fernando Diniz, Emygidio Barros, Rhafael Domingues e suas artes.
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Pintura de Rhafael Domingues
Formada em medicina, em 1926, foi à única mulher entre os 157 homens da turma, sendo a primeira se formar na área no Brasil. Após a perda do pai, a quem era muito ligada, sai de sua terra natal aos 19 anos com destino ao Rio de Janeiro, juntamente com o seu marido/primo, o sanitarista Mário Magalhães da Silveira, com quem vive até sua morte, em 1986.
Instalada no Rio, Nise especializa-se em psiquiatria. Aos 27 anos, passa num concurso público para trabalhar no Hospital da Praia Vermelha, no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental, em 1933. Durante a Intentona Comunista, também conhecida como Revolta Vermelha de 35 – tentativa de golpe ao governo de Getúlio Vargas -, uma enfermeira do hospital aonde atuava denunciou Nise ao vê-la com um livro marxista, ficando presa por 18 meses acusada de “crime político”, mas não foi torturada como as outras prisioneiras, dentre elas Olga Prestes, que após o nascimento da filha, foi extraditada para Alemanha Nazista, a qual teve contato. Além dela, o escritor Graciliano Ramos, tornando-se grandes amigos, e, inclusive, em sua obra relato-denúncia titulada “Memórias do Cárcere”, publicado em 1953, narra seu encontro com Nise.
Essa passagem, de certa forma, influenciou em seu trabalho após o período prisão e vivendo, obrigatoriamente, na clandestinidade, de 1936 a 1944, junto ao marido. Nesse longo afastamento dedicou-se a uma leitura reflexiva sobre as obras do filósofo Spinoza, que resultou no livro “Cartas a Spinoza”, publicado somente em 1995. Após seu retorno as sua atividades, ainda em 1944, momento que inicia a história do longa-metragem "Nise – O Coração da Loucura", dirigido pelo cineasta Roberto Berliner, ela se depara com uma nova realidade na área psiquiátrica e, além disso, sofrer preconceito por ser a mulher e a única a ocupar o cargo no corpo médico do hospital, numa época dominada pelo machismo.
Cena do filme "Nise – O Coração da Loucura"
O filme sintetiza a trajetória de Nise e a dimensão dos seus feitos que contribuíram, e muito, revolucionando os tratamentos psiquiátricos dos anos 40 no Brasil, antes realizado de forma agressiva através de eletrochoque, lobotomia, confinamento, etc, ao implantar atividades artísticas tirando-os os clientes (forma como tratava os pacientes) da ociosidade e ajudando na melhora dos mesmos.
Isso também ocorre em relação aos clientes, que pode ser compreendido de forma mais profunda através do livro “Imagens do Inconsciente”, ao apresentar os resultados dos estudos da doutora junto à teoria junguiana, a qual recomendo. Bem como a trilogia documental composta pelos filmes “Em Busca do Espaço Cotidiano”, “No Reino das Mães”, “A Barca do Sol”, dirigida pelo cineasta Leon Hirszman.
Em “Nise- O Coração da Loucura”, o cineasta também busca retratar os clientes a partir do olhar e como o mesmo carinho e sensibilidade da doutora Nise, interpretada pela atriz Glória Pires. Uma mulher forte, determinada, sensível, a frente de seu tempo, alguém que lutou pelo que acreditava e fez a diferença mesmo diante das dificuldades apresentadas em sua caminhada. É uma mulher inspiradora.
