A garota dinamarquesa: o amor acima de tudo

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Por Armando Neto, jornalista, escritor e apaixonado por cinema

Já havia escutado um burburinho positivo sobre “A Garota Dinamarquesa” (The Danish Girl), filme baseado no livro homônimo de David Ebershoff, e dirigido por Tom Hooper, responsável pelo excelente “O discurso do rei” (2010), o que me fez chegar ao cinema com a expectativa alta. Sabia de antemão que se tratava da história de uma das primeiras transexuais a se submeter à cirurgia de mudança de sexo, a dinamarquesa Lili Elbe, maravilhosamente interpretada por Eddie Redmayne.

Imaginava, previamente, que o filme centraria nas discussões e conflitos da sociedade da época sobre o polêmico assunto que, até hoje, infelizmente, é motivador de controvérsia nas mentes mais obtusas. Para minha surpresa, muito positiva por sinal, a trama foca em outro sentido, mais interno, explorando a vida do casal Einar Wegener (Lili Elbe) e sua esposa, Gerda Wegener, e, assim, nos revela a história de um amor além de qualquer limite individual, aquele residente na vontade, absoluta, de ver o seu companheiro feliz, de impulsioná-lo a uma liberdade acima das questões sexuais. 

Lili Elbe nasceu biologicamente como homem, batizada de Einar Wegener, e antes de se assumir mulher era pintor de paisagens, bastante reconhecido na Dinamarca dos anos 20. Einar se casou com uma de suas alunas, Gerda Wegener (Alicia Vikander). A relação entre os dois era de grande cumplicidade. Einar, até então mais consagrado, auxiliava a esposa a conquistar reconhecimento entre os críticos e público. Apesar de já sentir uma atração pelo universo feminino, como, no seu gosto pelo tecido das roupas femininas, quando se deleitava no camarim de um teatro, além de um olhar estético apurado para as maquiagens, a convivência entre o casal não era afetada. Ao contrário, viviam felizes, inclusive na sua intimidade.

A mudança em Einar inicia justamente quando passa a auxiliar a esposa no termino de uma obra. Como a modelo da pintura estava atrasada, Gerda solicita ao marido que vestisse as roupas da mulher e posasse para ela. Neste momento, em tom de brincadeira, nasce Lili Elbe, a personagem que ambos criaram para aquela situação.  Poucos dias depois são convidados para uma festa dos artistas da cidade. Einar, logo de cara, recusa o convite. Gerda, entretanto, o convence a encarnar Lili e, assim, participar do evento sem ser reconhecido. Neste dia, simultaneamente, há o nascimento oficial de Lili Elbe e o desaparecimento gradual de Einar Wegener

O britânico Eddie Redmayne, vencedor do Oscar 2015 ao interpretar Stephen Hawking em “A Teoria de Tudo”, novamente está deslumbrante. Mesmo como Einar Wegener, o ator já imprimia um olhar e feições tão femininos que tornaram a transformação extremamente natural, afinal, independente do aspecto exterior, o interior era de uma mulher. As primeiras vezes em que Einar veste-se como Lili são de uma beleza poética, de um reconhecimento sem igual, o encontro da essência com o ser. 

A atuação de Redmayne é acentuada pela sueca Alicia Vikander, cuja interpretação transparece a força do amor de Gerda, o grande sustentáculo da história. A atriz, com uma carreira bastante ascendente, tem boas participações em “Anna Karenina” (2012), “Son of a Gum” (2014) e “Testamento of Youth” (2015). Neste último, inclusive, recebeu uma nomeação para os British Independent Film Awards, na categoria de Melhor Atriz.

Além da direção de Tom Hooper, muito afinada e certeira, principalmente no realce das questões vivenciadas pelo casal central da trama, destaco também o excelente figurino, e a bela fotografia que explora as maravilhas naturais das paisagens dinamarquesas.

Este é um daqueles filmes para ser visto e revisto, principalmente para os que zelam por valores pré-concebidos e deixam de lado a individualidade, vivendo cada vez mais desconectados dos sentimentos em sua total profundidade. Einar só tornou-se Lili por ter Gerda sempre ao seu lado, traduzindo, em toda a sua concepção, o chamado sublime sentimento, o amor incondicional. O amor que não se prende aos rótulos e renasce na sua forma mais pura. O amor pelo amor.

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