Como falar sobre o filme “A História da Eternidade”, do cineasta e roteirista Camilo Cavalcante e não se emocionar? É impossível. Ainda posso sentir o impacto que esse filme causou em mim.
“A História da Eternidade”, que se originou de um curta-metragem de mesmo título realizado por Cavalcante em 2003, coloca o espectador diante de uma nova perspectiva do sertão nordestino. “O sertão não é só geografia, é alma”. É um sertão que habita dentro das personagens. Ali pulsa a vida. A beleza singular, a poesia que permeia o sertão-alma só pode ser vista e sentida à flor da pele.
No filme, há uma presença da figura masculina autoritária e arcaica, mas, no entanto, são as mulheres, interpretadas pelas atrizes Zezita Matos, Marcélia Cartaxo e Debora Ingrid, as verdadeiras senhoras de seus próprios destinos. Bem como diz Camilo, “A História da Eternidade” é um filme feminino que “transpira a beleza e transborda poesia, num fluxo constante e intenso”.
Dividido em três partes tituladas “Pé de Galinha”, “Pé de Bode” e “Pé de Urubu”, que podem parecer meio estranhos a primeira vista, são metáforas empregadas pelo cineasta. Demarcadas por títulos e imagens alegóricas, refere-se de forma poética os sentimentos vividos pelas personagens Querência, Alfonsina e Das Dores em cada parte do filme.
No decorrer do filme, vemos várias cenas belas e um trabalho minucioso do diretor de fotografia Beto Martins, mas há uma que é emblemática. Ao som da antológica canção “Fala”, do Secos & Molhados, de 1973, marca a performance realizada pelo tio de Alfonsina, o João, interpretado por Irandhir Santos, um artista que ganha à vida com sua arte, mas que sofre preconceito, principalmente, por parte do irmão (Claudio Jaborandir).
Não foi por acaso a escolha da canção. Entrelaçado ao contexto do filme e carga que carrega em si na letra, na voz potente de Ney Matogrosso, é um grito desesperado contra a qualquer tipo repressão vividos pelas personagens, que parece arranhar a alma.
Conforme João vai realizando os movimentos num plano sequencia de 360 graus, que potencializa a cena, dado momento, o personagem coloca uma espécie de “manto” que lembram asas. A expressão fica mais suave; é um encontro intenso e profundo com a arte, que o liberta de todas as amarras que o aprisionam. Por alguns segundos, experimenta a liberdade plena. Nota-se claramente, através desse personagem, o quão as pessoas daquele local estão presas, além de como é limitado à visão de mundo.
A trilha sonora de Zibgniew Preisner, que criou músicas para um dos grandes nomes do cinema, que sou fã e grande admiradora, o cineasta polonês Krzysztof Kieslowski – “A trilogia das Cores”, “Dekálogo”, “A Dupla Vida de Veronique”, entre outros -, e Dominguinhos, que faleceu em 2013, foi fundamental para a construção da atmosfera do filme.
Camilo inspira-se nas pinturas do artista barroco, o italiano Caravaggio, para compor a palheta de cores do filme, além dos efeitos de sombra e luz de suas obras, que potencializa o conjunto da obra. O filme proporciona uma experiência marcante e, ao mesmo tempo, de grande sensibilidade.
