Interestelar – a intuição e o amor como ciência a ser desvendada

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Devia ter escrito antes. É verdade. Interestelar foi lançado em novembro de 2014. Demorei a assistir e cheguei nele pelo diretor, Christopher Nolan, que na minha opinião, deveria ter dirigido os novos "Star Wars".

Interestelar não foi feito pra todo mundo, o que já é um bom sinal. Filmes não deveriam ser feitos para agradar todas as faixas etárias, todos os gostos. É uma ficção científica fantástica, que mostra com clareza os problemas que separam a humanidade dos sonhos da exploração espacial, de encontrar um novo lar nas estrelas.

A teoria da relatividade e os problemas do tempo são tratados o tempo todo. Todas as decisões podem ter consequências trágicas como demorar demais a ponto de, num hipotético retorno para casa, todos os conhecidos pelos astronautas estarem mortos. Por causa da ligação gravidade, espaço e tempo, a escolha dos caminhos sempre trazia algum infortúnio.

Trata-se de uma viagem difícil, cheia de limitações. Isso porque no filme as viagens espaciais, aterrissagens em outros planetas e as hibernações induzidas em seres humanos já são tecnologias comuns nas naves espaciais.

Permeando toda tecnologia e ciência do filme, está lá um tipo de misticismo. Mas diferente. Um misticismo que pode ser comprovado pela repetição dos eventos. Escrevo isso com algum tipo de excitação, pois não há evento místico na história da humanidade que preenche os requisitos para evento verificável cientificamente.

No filme acontece de maneira tão simples que uma garotinha de pouco mais de dez anos de idade consegue encontrar os padrões de repetição e define que o evento “místico” é uma forma de comunicação, ainda sem saber com o que ou com quem.

Essa relação entre o “místico”, ou simplesmente o desconhecido, continua na trama com um contato entre uma das astronautas e uma deformação visual, durante a passagem em um buraco de minhoca.

Ainda nessa linha, em vários momentos do filme, os personagens são colocados a decidir entre a razão e a emoção. Deixar os filhos na terra ou partir em uma aventura. Tendo combustível para salvar apenas uma pessoa, qual salvar: o mais dedicado à missão ou a pessoa amada?

As decisões se alternam, mas uma análise fria dos rumos tomados pela equipe que se aventura no espaço mostra que a razão foi pouco utilizada.

Os astronautas seguiam alguma linha de pensamento, de racionalidade, mas as chances de sucesso eram tão pequenas que beiravam o misticismo. Pegar uma nave cheia de limitações, entrar em um buraco de minhoca, passar perto de um buraco negro, experimentar na pele o que é a teoria da relatividade vendo uma década passar em algumas horas…

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Depois de passar por isso, se estivesse no lugar dos astronautas, não teria tanta certeza de que a proposta da Dra. Brandt (Anne Hathaway), de utilizar o único ticket de ida que eles tinham para salvar um antigo namorado que ela não via há mais de dez anos fosse absurda. Valeu certa racionalidade e outro planeta foi escolhido e ela não pode salvar seu ex-namorado.

Enquanto tentam salvar o Dr. Mann, descobrem que ele, que se destacou no programa que criou estas viagens espaciais, agiu com egoísmo para se salvar, inclusive, matando outros colegas que vieram resgatá-lo.

Dr. Mann (Matt Damon) representa a parte “chata” das aventuras estelares: a longa espera. Ir para outro planeta, 10 anos. Outro sistema, 20 anos. Esperar resgate, 50 anos. Desenvolver um novo planeta para a vida, 400 anos. O desespero do Dr. Mann não era tão infundado. 

O risco de morrer de todos os astronautas era altíssimo, mas o do Dr. Mann era morrer lentamente, esperando que algo quase impossível acontecesse. Já os outros eram exploradores, aventureiros. Eles protagonizavam a aventura. Deve ser mais fácil enfrentar a morte assim. 

E no final, Nolan mostra que não havia misticismo. Tratava-se apenas do desconhecido. E como quase em todos os filmes, os personagens principais, mesmo as crianças, tem uma inteligência e curiosidade que tornaram possível um salto no conhecimento.

Para um ateu que gostaria que existisse um deus ou alguma força mística, o filme traz esperança de que exista algo maior. Mesmo que seja apenas o desconhecido.

Lívio Sakai

Sou como um carro não muito velho, mas com 500.000 km marcados no odômetro.