Um olhar sobre o Cinema de Santa Maria

por Maurício Canterle

Escrevo esse relato bem pessoal sobre o Cinema de Santa Maria porque o conheço profundamente e dele faço parte. Em fevereiro de 2016, o Entrelinha Blog fez uma crítica sobre um filme que dirigi, intitulado “Espelho Hexagonal” (veja aqui), produzido na cidade de Santa Maria (RS). Foi aí que conheci o site e passei a colocá-lo na lista das minhas leituras diárias.

A nossa cidade ficou nacionalmente conhecida por causa de uma catástrofe que ainda faz parte da nossa memória. Um sentimento acumulado que acaba se refletindo nas obras de arte produzidas aqui, entre elas os filmes.

Esse é um dos motivos que nos faz prestarmos ainda mais atenção nas produções de realizadores locais, em minha opinião. Qualquer filme carregará vestígio desse acontecimento. É visível o reflexo disso também na música local, aonde, recentemente, boas bandas autorais vem se destacando na noite da cidade. Enfim, mas o assunto aqui é cinema feito numa cidade do interior do estado do Rio Grande do Sul, com cerca de 300 mil habitantes.

Uma das minhas principais lembranças relacionadas ao cinema foi à de ter participado de um Festival, o "1o Santa Maria Vídeo e Cinema", em 2002. A sensação de estar ali na plateia e ver filmes de curta-metragem produzidos em diversas partes do país, incluindo a nossa própria cidade, foi algo arrebatador. Talvez parecido com o que os italianos sentiram quando viram suas próprias ruas e cenários na tela, no auge do neorrealismo italiano.

Cena extraída do filme "1969", de Mauricio Canterle e Manolo Zanella

Cena extraída do filme "1969", de Mauricio Canterle e Manolo Zanella

Eu me fissurei naquilo. Decorava catálogos, sabia de cor o nome dos filmes, diretores e até a ordem em que seriam exibidos. Enfim, era uma época diferente. Não se podia colocar o vídeo no YouTube e mandar o link para as pessoas. Era ali a nossa chance de exibir alguma coisa para as pessoas. No ano seguinte, eu já fazia parte da equipe de um curta que participou e ganhou prêmios na mostra local. Em 2004, tive meu primeiro filme selecionado, titulado “1969”, que pode ser visto aqui. Ganhamos seis prêmios na mostra local, incluindo melhor filme. Aquilo foi o ápice da glória para nossa equipe de amigos e fez com que ficássemos ligados até hoje por ter feito parte daquele filme.

Cena do filme "Detalhe", de Maurício Canterle

Cena  extraídado filme "Detalhe", de Maurício Canterle

Em 2009, voltei a ter um filme selecionado, chamado “Detalhe” (que pode ser assistido aqui), que também ganhou vários prêmios, incluindo melhor filme na mostra local e melhor atriz na competição nacional. Não falo essas coisas para chamar atenção para mim, mas para que através de mim se possa reconhecer um pouco do cinema da cidade, com ampla tradição cineclubista e que faz filmes desde muito tempo atrás.

Mas voltando ao assunto principal, o festival parou de acontecer a alguns anos e essa sensação toda que descrevi não acontece mais para os realizadores locais. Torço pela volta do festival e ressalto a importância de iniciativas como a da Mostra de Cinema de Santa Maria, que ocorreu entre os dias 9 e 10/11. Foram exibidos diversos filmes produzidos na cidade, entre eles um que dirigi, "Espelho Hexagonal", que pode ser visto aqui. Confira também o texto "Cinema na tela e na pauta", que fala de como foi o evento, talvez um possível embrião do retorno do Santa Maria Vídeo e Cinema. 

Autor Convidado

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