O Festival de Cannes, prestigiado evento de cinema, que ocorreu na Riviera Francesa entre os dias 11 e 22 de maio, homenageou um dos clássicos do cinema, o filme “Le Mépris”(1963), dirigido pelo francês Jean-Luc Godard, mestre e um dos precursores da Nouvelle Vague – movimento que despontou no final da década de 50, na França.
Em sua 69.ª edição, quem assumiu a presidência do júri foi o cineasta George Miller, de “Mad Max: Estrada da Fúria”, que durante a abertura do evento foi homenageado. Os diretores László Nemes (O Filho de Saul), Arnaud Despleich (Três Lembranças da Minha Junventude), os atores Donald Sutherland, Valeria Golino, Kirsten Dunst, Mads Mikkelsen, Vanessa Paradis e a produtora Katayoons Shahadi formam o corpo de jurados.
O ator francês Jean-Pierre Léaud, o eterno Antoine Doinel dos filmes do cineasta François Truffaut (1932-1984) – seu alterego -, recebeu a Palma de Ouro honorária. Em sua longa carreira, Jean-Pierre contribuiu com outros grandes nomes do cinema, os cineastas Jean-Paul Godard, Jacques Rivette, Bernardo Bertolucci, Aki Kaurismäk, Bertrand Bonello, Jean Eustache, Olivier Assayas e Philippe Garrel. Uma homenagem mais do que merecida.
A abertura do evento contou com um tributo especial ao cantor Prince, que morreu no dia 21 de abril. Prince foi premiado no Oscar 1985 como Melhor Canção Original pelo filme “Purple Rain” (1984), do cineasta Albert Magnoli. Além disso, contribuiu com a trilha sonora dos filmes “Batman” (1989), de Tim Burton, e “Garota 6”, do diretor Spike Lee, exibido no Festival do Cannes de 1996.
O novo longa-metragem do icônico diretor Woody Allen, “Café Society”, que abriu a competição pela Palma de Ouro, dividiu a crítica, como ocorreu em “A Magia ao Luar” (2014). A fotografia do filme, bem como o elenco escalado, foi muito elogiada. A minha expectativa é que o novo trabalho seja mais consistente do que “O Homem Irracional” (2015); esperava bem mais do filme, nem um ótimo elenco conseguiu salvar um roteiro fraco.
O filme “Staying Vertical”, do excêntrico diretor francês Alan Guiraudie, premiado há três anos no Festival com “O Estranho no Lago”, aborda um assunto bem delicado; uma jovem sobre depressão pós-parto, além das incertezas com relação ao seu companheiro, que é instável, leva-a a deixar ambos. O longa-metragem causou certa polêmica, deixando a crítica dividida.
No Festival de Cannes havia mulheres sim atrás das câmeras, como, Maren Ade (“Toni Erdmann”), Nicole Garcia (“Mal de Pierres”), Andrea Arnold (“American Haney”), Jodie Foster (“Money Monster”), Stéphanie Di Giusto (“La Danseuse”), Maha Haj (“Omor Shakhsiya”), um número ainda pouco expressivo. O resultado final do evento foi realmente decepcionante, na cerimônia de encerramento apenas Andrea Arnold foi lembrada, na qual recebeu o Prêmio do Júri.
Durante o evento, a atriz e cineasta Jodie Foster, após o filme “Um Novo Despertar”, estrelado por Mel Gibson, que traz forte tensão, estreou “Money Monster”. O filme narra sobre uma personalidade da TV que se torna um guru de Wall Streat, usando informações privilegiadas da Bolsa de Valores. Porém , quando um telespectador perde todas as economias da família com uma de suas dicas, decide fazê-lo refém e desmascará-lo ao vivo.
O longa-metragem "Money Monster", com Julia Roberts e George Clooney como os protagonistas, parceria que já rendeu 4 Oscars e 15 indicações, foi bem recebido, porém, não considerado sua obra-prima.
O cinema brasileiro foi muito bem representado no Festival de Cannes com o documentário “Cinema Novo”, do cineasta Eryk Rocha, premiado como o Melhor Documentário, na competição paralela. O filme retrata, a partir fragmentos de cenas marcantes de 130 filmes clássicos que foram filmados entre 1955 e 1975, de forma inventiva e poética, tendo a ditadura em seu encalço. Um documentário que aborda que sobre esse expressivo movimento cinematográfico brasileiro que despontou na década de 60.
“A Menina que Dançou com o Diabo”, do diretor João Paulo Miranda, que se baseia em uma lenda urbana sobre uma garota de família religiosa que, na noite de Sexta-feira da Paixão, dança com um forasteiro que mais tarde revela ser o diabo, também sai premiado do Festival com uma Menção Especial. Em breve, você confere a crítica do filme aqui no EntreLinha.
O longa-metragem “Aquarius”, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, gira em torno de Clara, viúva, mãe de três filhos, escritora e crítica de música aposentada, que se vê diante de um grande problema: uma construtora quer comprar os apartamentos para demolir o prédio. O filme, que concorria a Palma de Ouro, foi aplaudido de pé após exibição, muito elogiado pela crítica. Mas é “I, Daniel Blake”, do cineasta britânico Ken Loach, retomando ao tema da defesa da minoria diante aos abusos do Estado.
Segundo Loach, ao receber a Palma de Ouro, “o cinema faz viver a nossa imaginação, traz ao mundo os sonhos, mas também nos apresenta o verdadeiro mundo no qual vivemos. (…) O cinema leva consigo numerosas tradições, uma delas é apresentar um cinema de protesto, um cinema que põe o povo à frente dos poderosos. Eu espero que essa tradição se mantenha. (…) Um outro mundo é possível e necessário”.
Confira outros premiados no Cannes 2015:
COMPETIÇÃO
Palma de Ouro: I, Daniel Blake, de Ken Loach
Grand Prix: "Juste La Fin du Monde", de Xavier Dolan
Prêmio do Júri: "American Honey", de Andrea Arnold
Melhor Atriz: Jaclyn Jose, por "Ma' Rosa"
Melhor Ator: Shahab Hosseini, por "The Salesman"
Melhor Direção (empate): "Graduation", de Cristian Mungiu e "Personal Shopper", de Oliver Assayas
Melhor Roteiro: "The Salesman", de Asghar Farhadi
MOSTRA UN CERTAIN REGARD
Prêmio principal: “The Happiest Day in the Life of Olli Mäki”, de Juho Kuosmanen
Prêmio do Júri: "Harmonium", de K?ji Fukada
Melhor Diretor: Matt Ross, de "Captain Fantastic"
Melhor Roteiro: Delphine Coulin and Muriel Coulin, por “The Stopover”
Prêmio Especial: “The Red Turtle”, de Michael Dudok de Wit
CINÉFONDATION
Primeiro prêmio: “Anna”, de Or Sinai
Segundo lugar: “In the Hills”, de Hamid Ahmadi
Terceiro lugar: “The Noise of Licking”, de Nadja Andrasev e The Guily, de Michael Labarca
Curtas-Metragens
Palma de Ouro: “Timecode”(Espanha), de Juanjo Giménez
Menção Especial: “A Garota que Dançou com o Diabo” (Brasil), João Paulo Miranda Maria
Prêmios Paralelos:
GOLDEN EYE (melhor documentário): "Cinema Novo", de Eryn Rocha
PALM DOG (melhor animal em cena): Nellie em Patterson
QUEER PALM (melhor filme de temática LGBT): "The Lives of Thérèse", de Sébastien Lifshitz
CANNES SOUNDTRACK AWARD (melhor trilha sonora): The Neon Demon
PALMA DE OURO HONORÁRIA: Jean-Pierre Leáud
FIPRESCI (prêmio da crítica): “Toni Erdmann”, de Maren Ade
PRÊMIO DO JURI ECUMÊNICO: "Juste la Fin du Monde", de Xavier Dolan

