“Entre Vales”: as rupturas da vida

 

O filme brasileiro “Entre Vales”, do cineasta Philippe Barcinski, traz a história de um homem comum, interpretado pelo ator Ângelo Antônio, que depois de uma perda após a outra se vê diante do abismo. A sua fragilidade da perda e a necessidade de se recriar para sobreviver, são os dois pontos em “Entre Vales”.

Com raízes em um projeto de documentário proposto pelo produtor Diler Trindade, em 1991, no qual Barcinski fez parte e, no entanto, não saiu do papel, acabou levando-o ao lixão de Gramacho, no Rio de Janeiro. Impressionado com que viu e as inúmeras histórias que ouviu das pessoas que trabalham no local e depois, em São Paulo, em contato com as cooperativas de lixo, o filme traz um pouco desses dois mundos.

Em “Entre Vales”, Barcinski leva o espectador a caminhar entre o passado e o futuro de Vicente que, aos poucos, são revelados o que pode ter levado aquele homem a viver no lixão.

Outro ponto interessante é a forte presença do afeto. Embora o termo possua uma concepção bem ampla, para o psicanalista Carl Gustav Jung, o afeto é visto como sendo sinônimo da emoção afetiva de intensidade tal que possa acarretar no indivíduo “uma agitação psíquica ou outros distúrbios psicomotores”. Afeto esse que o protagonista possui em relação ao filho, a maquete e próprio ambiente que o cerca.

As cores presentes no filme, marcada pela fotografia saturada, exceto as cenas em que Vicente está na companhia do filho Caio, são elementos importantes na construção da narrativa de “Entre Vales”. “As cores podem produzir impressões, sensações e reflexos sensoriais de grande importância, porque cada uma delas tem uma vibração determinada em nossos sentidos e pode atuar como estimulante ou perturbador na emoção, na consciência e em nossos impulsos e desejos”, como apontam Modesto Farina, Clotilde Perez e Dorinho Bastos, no livro “Psicodinâmica das Cores em Comunicação”.  

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Embora o longa-metragem apresente poucos diálogos, a força está nas imagens, em cada som e, principalmente, na interpretação visceral de Ângelo Antônio, que faz pulsar “Entre Vales”.

O espectador também deve se atentar aos subtextos do filme, inclusive, alegorias visuais, como, por exemplo, o lixão, empregado pelo cineasta como metáfora no "processo de perda, destruição e renascimento” ou até mesmo o próprio título que remete o estado de Vicente (Ângelo Vicente).

Barcinski cria uma série de camadas de significados no filme, no qual cada espectador precisa decodificá-las, uma a uma, se quiser compreender a obra como um todo.

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e também jardineira. É cofundadora do Coletivo Pausa, cofundadora/editora-chefe do EntreLinha, uma cinéfila incorrigível, amante das artes e da literatura.