A discussão sobre desigualdade de gênero na indústria cinematográfica e a representação da mulher nos filmes e games não é um assunto tão atual, mas que têm ganhado força e voz no Brasil e no mundo. Embora ainda haja obstáculos, principalmente em relação às mulheres serem ouvidas, não podemos nos calar. Como diz a própria Malala, no documentário “He Named me Malala”, de Davis Guggernheim: “Há um momento em que você tem de escolher entre silenciar e se rebelar”. Sim, precisamos trazer essas discussões à tona.
Tenho acompanhado o assunto já algum tempo (veja aqui para se inteirar), e quando soubemos do evento “Quem tem medo da mulher no audiovisual?”, promovido pelo Coletivo Vermelha, com certeza o EntreLinha não ficaria de fora. Nós queríamos contribuir de alguma forma, estimular também a reflexão que é tão necessária.
Dentre os debates realizados, o “Olhar feminino: isso existe?”, realizado no dia 17, no MIS-Campinas, que contou com a participação da pesquisadora Karla Bessa (pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gêneros Pagu – Unicamp), Marina Fuser (pesquisadora e ativista), Renata Gomes (professora e pesquisadora) e a cineasta Tata Amaral, instigaram muitas discussões interessantes, além de compartilhar muitas informações, na qual algumas delas desconhecia.
A pesquisadora Renata Gomes, especializada em narrativa de games, traçou um paralelo em relação ao cenário de intolerância política brasileira que estamos vivendo neste momento com o episódio denominado Gamer Gate, na qual “o discurso anticorrupção serviu de pivô para que jogadores ameaçassem mulheres em função da misoginia do meio dos games”.
Para quem ainda não sabe, até então também desconhecia sobre o fato, algum tempo atrás a blogueira e crítica de mídia americana Anita Sarkeesian fez uma série de vídeos em que analisava minuciosamente a representação da mulher nos videogames mais famosos, como o GTA, que é um dos campões de vendas no segmento, que traz a mulher como objeto sexual e de consumo.
Além dela, outras mulheres que também chegaram a denunciar o machismo nesse universo dos games sofreram e ainda sofrem ameaças constantes de morte e estupro, tanto virtualmente quanto em suas próprias casas, de agressões verbais de baixo calão, além de ter suas vidas privadas hackeadas. Sim, é chocante ao ponto em que as pessoas chegam.
A polêmica do Gamer Gate é apenas um exemplo de inúmeros casos que ocorrem em diferentes áreas. Segundo Renata, o escândalo acabou marcando um avanço feminista. Em suas palavras, “há indústrias mais perversas que fazem Hollywood parecer comunista”.
A cineasta Tata Amaral, que já dirigiu vários filmes, tais como “Hoje” (2011), "De Menor" (2012), “É Proibido Fumar” (2009), entre outros, pautou sobre os valores e símbolos que encontram-se atrás dos produtos culturais que consumimos diariamente, além de questionar quem são os setores tem desenvolvido esse conteúdo.
No entanto, há uma nova geração que está fazendo mudanças significativas nesse cenário, como ela bem diz, um protagonismo. “(…) Ações, produções e manifestações recentes, criadas e organizadas por mulheres de todas as partes do país, e de todas as camadas sociais, afirmam a soberania sobre nosso corpo e consciência, disputam espaço e estabelecem direitos, criando novas e melhores representações. Dezenas de movimentos em defesa da vida e dos direitos humanos são compostos majoritariamente por mulheres.
Estes são os sinais de que a sociedade está construindo novo protagonismo. "Os valores estão em plena transformação e, apesar do conservadorismo – que sempre existiu e que agora arregaça suas mangas abertamente – estamos andando para frente.”
A ativista e pesquisadora Mariana Fuser levantou a questão de gênero e, segundo ela, para criar esse olhar feminino é preciso quebrar as barreiras de gênero que foram impostas pela própria sociedade. Isso me fez lembrar o filme do Mascaro, o “Boi Neon”, que desconstrói os estereótipos pré-concebidos em relação ao gênero e ressignificando-o. Além disso, abordou o feminismo da diferença e a importância do lugar de fala das mulheres em sua diversidade.
Embora a atuação feminina atrás e na frente das câmeras ainda seja tímida por falta de espaço, tenho esperança que esse cenário melhore daqui alguns anos e que possamos ver mais produções dirigidas por mulheres.

