Por Armando Neto, jornalista e escritor.
Claudio Assis, diretor de “Amarelo Manga”, “Baixio das Bestas” e “Febre do Rato” nos brinda novamente com cinema da melhor qualidade. “Big Jato”, grande vencedor do Festival de Brasília 2016, mantém a essência autoral de suas produções, porém, dessa vez, com menos acidez, ressaltando, assim, o lirismo já presente nas obras anteriores. Nesse caso, centrado no sonho da liberdade em meio às várias grades internas do cotidiano.
A história, baseada no livro homônimo de Xico Sá, se passa na cidade fictícia de Peixe da Pedra, que representa, com todas as mazelas, um munícipio do interior Pernambucano. Lá, vivem Francisco (Matheus Nachtergaele) e seu filho Chico (Rafael Nicácio), personagens principais da trama. Francisco ganha a vida desentupindo fossas com o seu caminhão Big Jato. Chico, o caçula dos três filhos, acompanha o pai no trabalho e gera, dessa forma, o maior conflito do filme, a busca da essência perante a aridez da sobrevivência.
Chico tem o sonho de ser poeta, de se libertar do destino “fossilizado” dos habitantes de Peixe de Pedra. Nesse sentido, ele tem dois grandes apoios, seu tio Nelson, também magistralmente interpretado por Matheus Nachtergaele, e o príncipe Ribamar, espécie de louco, poeta, filósofo da cidade, vivido por Jards Macalé. Os dois personagens, de tão lúdicos, tornam muito tênue a linha entre realidade e fantasia. Príncipe Ribamar, especialmente, tem aparições desencontradas, reverberando o devaneio da poesia em um mundo cada vez mais apático.
O personagem de tio Nelson é o contraposto de seu irmão gêmeo Francisco. Radialista, ele comanda um programa de rock and roll e prega uma vida contrária ao sistema “escravagista” do trabalho. O duelo entre a visão matemática de Francisco e a liberdade romântica de Nelson é tão contundente que se tem a nítida impressão de serem a mesma pessoa, lutando cotidianamente contra um conflito existencial. Os únicos elos entre os dois são os Beatles, gosto musical que Nelson diz ter passado a Francisco e a cachaça. Mas, no caso da bebida, enquanto Nelson consome sempre em situações de prazer, em festas, regadas à mulheres e amigos, Francisco bebe para buscar refúgio de uma rotina marcada pela ríspida luta contra a miséria. É notório também que Nelson se embriaga para encobrir a dor por não ter partido de Pedra de Peixe e, mais uma vez, a ligação entre os dois se faz distante a primeira vista, porém, tão profunda em suas angústias, que interpretá-los como único faz todo o sentido.
Big Jato, assim como os outros filmes de Claudio Assis, é repleto de cenas lindas, com diálogos carregados de metáforas. A fotografia do sertão nordestino, em composição com a trilha sonora bastante afiada, dá um tom de fábula, corroborando na potência lírica.
Potência esta que não dilui temas paralelos como o machismo e a falta de esperança dos moradores do agreste. Com leveza, Big Jato cavouca fundo e revela os buracos internos de nosso existir, fendas que servem para nos incomodar, nos traduzir. Para uma obra tão tocante, nada melhor que a poesia originada na fonte dessa embriagante fantasia. Salve Xico Sá, Salve Claudio Assis, salve a literatura e o cinema nacional!
Adubo Caminho
Da lama nasce a flor do dissabor interno
Muro alimentado em cercanias indiretas
Antena sabotada em contínuas reticências
Olhas o vazio
Sucumbe na vala
Na incapacidade de ir além
Na autoestrada angustiada
Encravas na fossa
Grama encharcada de pavor
Do passo contrário ao movimento
A fresta de coragem encoberta
Areia movediça da vergonha consciente
Refém de si mesmo
Cavalgas o alarde sustenido
Milagre tão perto e longínquo
Semente a florescer no adubo caminho
Armando Martinelli Neto
